Embora a autoestima seja compreendida por muitos como o sentimento de amor-próprio, ela não se limita apenas a isso. A estima é como uma espécie de tecido constituído por uma trama de fios mesclados por sentimentos de valor, capacidade, adequação e confiança que são alinhavados pelo pensamento e pela linguagem.
A base da autoestima se forma a partir das experiências afetivas relacionais estabelecidas no interior do núcleo familiar, em especial das experiências vividas na infância, e se consolida nas relações ampliadas.
Do ponto de vista da neurobiologia, o sentimento de autoestima é resultante da complexa interação entre aspectos emocionais e cognitivos, no qual um importante componente do sistema límbico denominado de hipocampo exerce um papel fundamental na avaliação afetiva das nossas experiências.
Em outras palavras, o que a criança sente, compreende e verbaliza num dado momento e numa determinada situação influenciará na forma de sentir-se e perceber-se, delineando a sua própria identidade.
Quando uma criança é tratada com respeito, amor e compreensão, ela entende que é amada, importante e valorosa. A compreensão se dá da seguinte forma: “se gosta de mim, eu me gosto”.
Nem todas as pessoas na infância tiveram experiências baseadas no amor, na aceitação, no respeito, na validação e na valorização para moldar sentimentos de valor, de amor, de respeito, de capacidade e de confiança preciosos na formação da nossa identidade.
Nesse ponto da leitura, você pode se pegar pensando: se eu não tive uma base de qualidade para a formação da minha estima, agora na vida adulta existe solução?
Sim! O nosso cérebro possui capacidade de neuroplasticidade que possibilita que novos padrões de experiências possam se modificar e moldar estruturas do sistema nervoso. Dessa forma, estabelecer novas experiências afetivas relacionais saudáveis proporcionará uma nova forma de sentir-se, perceber-se e compreender-se e consequentemente, uma redefinição do sentimento de estima.

Me recordo de uma jovem cujo nome fictício é Maria, que alegava ter sido rejeitada pelo seu pai e descrevia que “Meu pai estava ali, mas era como se não estivesse, era indiferente, não tinha tempo para mim, era distante, alheio a nós, achava que ele não gostava de mim. Hoje, quando olho para a minha infância, tenho a sensação de que meu pai era esquisito, mas consigo entender que ele sofria de depressão e naquela época nem se falava sobre isso e finalmente pude entender que não era sobre mim, nem sobre me rejeitar. Ele não podia me dar afeto em função do adoecimento”.
Essa jovem que cresceu sentindo rejeitada pelo pai e entendendo que não era importante, ou, boa o suficiente, por meio do autoconhecimento, pode olhar para a sua infância com olhos de jovem adulta, acolher a sua criança ferida, e então, produzir novos sentidos e significados para as suas experiências vividas e finalmente pode construir um novo entendimento de si necessário para redefinir crenças e comportamentos. Pode dizer em tom firme: “sou importante e amável”.
Assim como a Maria cresceu com o entendimento de que não era importante ou gostável, inúmeras pessoas também tiveram experiências de desamparo, rejeição, desvalorização, vergonha, medo, humilhação e desvalidação, formando uma espécie de porosidade e até mesmo lacunas na base constituinte da autoestima tão importante para o delineamento da identidade do ser humano.
Pessoas com estima inadequada tendem a desenvolver comportamentos prejudiciais, tais como abuso de substâncias, autolesão e se envolver em relacionamentos abusivos. Os prejuízos causados pela baixa estima interferem em todas as áreas da vida do ser humano, inclusive na saúde financeira.
Como desenvolver autoestima?
Não existe uma receita milagrosa para melhorar o sentimento de estima, pois o seu desenvolvimento é processual e requer tempo, disponibilidade e dedicação. Ao escolher investir no desenvolvimento da autoestima, é importante ter em mente que o percurso envolverá trabalhar:
Conhecimento de si: Envolve conhecer os aspectos do jeito de ser, de pensar, de agir, de relacionar-se consigo e com as pessoas. Além disso, reconhecer qualidades, defeitos, talentos, limites, dificuldades e potencialidades. É fundamental separar os aspectos da nossa essência dos aspectos atribuídos pela percepção do outro sobre si.
Aceitação genuína de si: Aceitar-se como é implica em adotar-se! Muitas pessoas buscam aprovação e aceitação externa e lá, no fundo, não se acolhem nem tampouco se aceitam com todas as qualidades e
limitações que possuem. E a consequência disso é a ausência de paz. Criticar-se, julgar-se, buscar a perfeição são exemplos de uma postura desrespeitosa para consigo.
Valoração pessoal: Qual é o seu valor? Você já parou para refletir o quão valorosa você é? A percepção de valor próprio norteará suas escolhas, suas atitudes, enfim, como se coloca no mundo e na expressão dos seus papéis.
Autorresponsabilidade: Quando deixamos de culpar o destino ou as pessoas pelos infortúnios, erros e problemas, significa que assumimos a própria vida. Assumir as rédeas da própria vida implica em fazer escolhas conscientes. Requer abandonar o papel de vítima ou de mero observador e assumir o papel de protagonista no palco da vida.
Capacidade: Acreditar na própria capacidade é fundamental para o desempenho dos diversos papéis, funções e tarefas no cotidiano com motivação e satisfação. Dessa forma, a autoeficácia habilita o ser humano a lidar com desafios e a resolver problemas e realizar sonhos.
Confiança: O sentimento de confiança em si é desenvolvido com base nas experiências bem-sucedidas do cotidiano. Sabe aquela sensação de bem-estar ao conseguir realizar com êxito alguma tarefa? Tais sensações são potencializadoras do sentimento de autoconfiança.
Validação emocional: Em vez de esperar que o outro nos valide, podemos validar nós mesmos. Validar aspectos do modo de ser, os potenciais, as habilidades, enfim, autenticar a identidade é parte fundamental para gerar autorização. Uma pessoa pode almejar prosperar na vida, contudo, caso não gere autorização, ficará apenas contemplando ao invés de concretizá-lo.



